O caso “Dark Horse” é maior do que a investigação sobre o filme em si. Ele começou como uma discussão sobre quem financiaria a cinebiografia de Jair Bolsonaro e acabou envolvendo suspeitas sobre dinheiro privado, emendas parlamentares, contratos públicos, empresas terceirizadas, lavagem de dinheiro e o contrato de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo.
Abaixo está a cronologia do início até o momento atual, 11 de setembro de 2026.
O que é “Dark Horse”?
“Dark Horse” é uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O projeto tem como produtor-executivo e roteirista o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e é produzido pela Go Up Entertainment, ligada à empresária Karina Ferreira da Gama.
O filme ainda não foi lançado e passou a chamar atenção não apenas pelo conteúdo político, mas principalmente pela origem dos recursos utilizados em sua produção.
1. A primeira grande dúvida: quem estava financiando o filme?
Antes da atual operação da PF, já havia uma investigação no STF sobre os recursos privados destinados ao filme.
O nome que ganhou destaque foi o do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo reportagens, houve tratativas envolvendo valores de até US$ 24 milhões para financiar o projeto. A negociação teria envolvido o senador Flávio Bolsonaro, que afirmou ter procurado investidores para viabilizar o filme e negou ter recebido dinheiro para uso pessoal.
A questão que passou a interessar às autoridades era:
De onde vinha o dinheiro e qual era o caminho percorrido pelos recursos até chegar à produção?
2. A investigação sobre Daniel Vorcaro
A história ganhou ainda mais complexidade quando as autoridades passaram a investigar negócios envolvendo Daniel Vorcaro e outras estruturas financeiras.
Em setembro de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Jr., conhecido como “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e Participações.
Segundo informações divulgadas sobre a colaboração, Freixo detalhou pagamentos relacionados ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, que teria sido utilizado para financiar o filme.
Isso abriu uma frente para investigar a origem, a movimentação internacional e a finalidade dos recursos privados relacionados ao projeto.
Mas essa era apenas uma parte do caso.
3. ️ Surge a segunda frente: dinheiro público
A investigação começou a olhar também para emendas parlamentares destinadas por Mario Frias a entidades ligadas a Karina Gama.
Karina é uma personagem central porque aparece simultaneamente em diferentes pontos da história:
- é ligada à Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”;
- preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB);
- preside a Academia Nacional de Cultura (ANC);
- também aparece ligada à empresa GO7/Conhecer Brasil Assessoria.
Essa concentração de empresas e entidades sob o mesmo núcleo passou a chamar a atenção dos investigadores.
4. As emendas de Mario Frias
Uma das linhas investigadas envolve R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas por Mario Frias a entidades ligadas a Karina.
Uma delas, de R$ 1 milhão, foi destinada ao ICB para um programa de empreendedorismo voltado a estudantes de escolas públicas.
O problema apontado pela investigação é que o projeto não teria sido efetivamente executado, apesar de o dinheiro ter sido repassado.
Segundo levantamento divulgado pelo UOL, o ICB distribuiu os R$ 1 milhão entre sete empresas:
- Projetus — R$ 20 mil
- MTS Assessoria e Consultoria — R$ 150 mil
- Dinâmica Editora — R$ 400 mil
- Instituto Super Poder Educacional — R$ 300 mil
- Marcelo Machado 7 Comunica — R$ 50 mil
- LF&P Consulting — R$ 80 mil
Os valores totalizam R$ 1 milhão.
Entre os envolvidos aparecem pessoas próximas a Mario Frias, inclusive um advogado ligado ao deputado.
5. E então aparece o contrato de Wi-Fi de São Paulo
É aqui que o caso fica ainda maior.
O Instituto Conhecer Brasil, comandado por Karina Gama, possui um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de milhares de pontos de Wi-Fi gratuito em regiões periféricas.
O contrato previa 5 mil pontos.
Segundo informações divulgadas durante a investigação, cerca de 3,2 mil haviam sido instalados, e houve aditivos prorrogando os prazos de execução.
O contrato já era alvo de investigação do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo.
A Prefeitura afirma que não identificou irregularidades na assinatura e execução do termo de colaboração e diz que sua Controladoria acompanha o caso.
6. A descoberta da triangulação de R$ 6,1 milhões
Em setembro de 2026, surgiu um dos elementos mais importantes da investigação.
Segundo relatório da Polícia Federal utilizado para fundamentar a operação, pelo menos R$ 6,1 milhões teriam percorrido um circuito envolvendo empresas terceirizadas do ICB e outra entidade ligada a Karina Gama, a Academia Nacional de Cultura (ANC).
O caminho investigado, simplificadamente, seria:
Prefeitura de São Paulo
↓
Instituto Conhecer Brasil (ICB)
↓
empresas terceirizadas
↓
Academia Nacional de Cultura (ANC)
O ponto que despertou a suspeita é que as empresas receberam dinheiro relacionado ao contrato de Wi-Fi e, posteriormente, parte dos recursos teria retornado para outra organização ligada à mesma empresária.
Para a PF, esse circuito pode indicar uma tentativa de dissimular a origem e o destino dos recursos.
Importante: uma triangulação financeira, por si só, não prova lavagem de dinheiro. A investigação precisa demonstrar que havia dinheiro de origem ilícita e intenção de ocultar ou dissimular essa origem.
7. Por que o nome “Make Up”?
A operação da Polícia Federal foi batizada de Operação Make Up — expressão em inglês relacionada a “maquiagem”.
O nome faz referência justamente à suspeita de que operações financeiras e contratações teriam sido utilizadas para “maquiar” a verdadeira destinação dos recursos.
A PF afirmou que identificou uma organização formada por agentes públicos e privados que teria direcionado valores para empresas subcontratadas irregularmente e sem comprovação adequada da prestação dos serviços.
Os investigadores também identificaram movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao grupo.
8. 10 de setembro: PF deflagra a Operação Make Up
Em 10 de setembro de 2026, a Polícia Federal realizou a operação.
Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em:
São Paulo
Rio de Janeiro
Ceará
Distrito Federal
Entre os principais alvos estão:
- Mario Frias
- Karina Ferreira da Gama
- empresas ligadas a Karina;
- pessoas relacionadas ao ICB;
- pessoas ligadas à ANC;
- empresas que participaram do contrato de Wi-Fi;
- pessoas próximas ao deputado.
A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF.
9. A ligação de Mario Frias com uma das empresas
Outro elemento investigado envolve a empresa Complexsys.
A empresa recebeu aproximadamente R$ 9,9 milhões do Instituto Conhecer Brasil entre 2024 e 2026, dentro do contrato relacionado ao Wi-Fi.
A PF identificou transferências da Complexsys para a Academia Nacional de Cultura, entidade ligada a Karina.
Além disso, a investigação aponta que Mario Frias teria utilizado R$ 154 mil de sua cota parlamentar para pagar a Complexsys.
Esse conjunto de relações chamou a atenção dos investigadores porque conecta:
Mario Frias → cota parlamentar → Complexsys → ICB → Karina Gama → ANC → Go Up → Dark Horse.
A Complexsys nega que os recursos recebidos tenham sido usados para financiar o filme e afirma que foram empregados exclusivamente na execução do contrato de Wi-Fi.
10. E o dinheiro teria chegado ao filme?
Esse é provavelmente o ponto mais delicado de toda a investigação.
A PF investiga se recursos públicos destinados originalmente a projetos sociais ou contratos públicos acabaram, direta ou indiretamente, beneficiando a produção de “Dark Horse”.
Uma das suspeitas divulgadas envolve aproximadamente R$ 750 mil.
Segundo a investigação, recursos originários de uma emenda destinada ao ICB teriam percorrido empresas intermediárias e chegado à produtora do filme durante o período de produção.
O relatório teria identificado aquilo que os investigadores consideram um circuito financeiro fechado e incompatível com uma operação comercial normal.
Mas atenção:
isso ainda é uma suspeita investigativa, não uma condenação judicial.
11. Quem é Karina Gama nesse quebra-cabeça?
Karina Gama se tornou uma das figuras centrais porque seu nome aparece em praticamente todos os núcleos.
Ela está ligada a:
Go Up Entertainment
produtora de Dark Horse
Instituto Conhecer Brasil
entidade envolvida no contrato de Wi-Fi
Academia Nacional de Cultura
entidade que teria recebido recursos de empresas relacionadas ao contrato
GO7/Conhecer Brasil
empresa ligada à área de assessoria e produção cultural
Essa sobreposição é uma das razões pelas quais a PF investiga se diferentes fluxos financeiros faziam parte de uma estrutura coordenada.
12. ️ E aparece até uma ligação com o PCC
Outro aspecto que aumentou a dimensão do caso foi a presença de Alex Leandro Bispo dos Santos, conhecido como “Escorpião do PCC”.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, ele é apontado como integrante do PCC.
Ele teria sido representante da empresa Favela Conectada, posteriormente denominada Urban Connect, que atuava como subcontratada no contrato de Wi-Fi.
Ele também foi alvo da operação.
Isso não significa que a produção do filme tenha relação comprovada com o PCC. O que existe é uma investigação sobre pessoas e empresas que aparecem dentro da mesma rede de contratos e movimentações financeiras.
13. Doadores de Mario Frias também entraram no radar
A PF também identificou relações envolvendo doadores da campanha de Mario Frias e pessoas que posteriormente receberam pagamentos relacionados a projetos financiados por emendas.
Um dos exemplos divulgados envolve um doador que contribuiu com R$ 4 mil para a campanha de Frias em 2022 e posteriormente recebeu R$ 7,5 mil por serviços prestados em projetos financiados por emendas.
Outro grupo de pessoas relacionado a uma das maiores doadoras aparece ligado a contratos que somariam cerca de R$ 700 mil dentro de um projeto de R$ 1 milhão.
A PF investiga se essas relações eram apenas coincidências comerciais ou se faziam parte de uma estrutura previamente organizada.
14. As armas encontradas com Mario Frias
Durante a operação, também foram apreendidas armas registradas em nome de Mario Frias.
Segundo a Folha, sete armas foram encontradas em endereço que não estaria autorizado para a guarda delas.
Esse episódio é uma questão paralela à investigação financeira e não significa que as armas tenham relação direta com o financiamento do filme.
15. ⚖️ Quais crimes estão sendo investigados?
A PF trabalha com suspeitas de:
- peculato
- lavagem de dinheiro
- falsidade documental
- organização criminosa
- fraudes em licitações
- possíveis irregularidades na aplicação de emendas parlamentares
A PF afirma ter identificado movimentações financeiras de centenas de milhões de reais dentro da estrutura investigada.
ENTÃO, QUAL É A TESE DA PF?
Simplificando bastante, a investigação tenta descobrir se existia uma estrutura como esta:
EMENDAS PARLAMENTARES
⬇️
ENTIDADES LIGADAS A KARINA GAMA
⬇️
EMPRESAS CONTRATADAS/SUBCONTRATADAS
⬇️
TRANSFERÊNCIAS ENTRE EMPRESAS E ENTIDADES
⬇️
POSSÍVEL DISSIMULAÇÃO DOS RECURSOS
⬇️
RECURSOS QUE PODERIAM BENEFICIAR INTERESSES PRIVADOS
⬇️
PRODUÇÃO DE “DARK HORSE”
E existe um segundo caminho investigado:
PREFEITURA DE SP
⬇️
R$ 108 MILHÕES — CONTRATO DE WI-FI
⬇️
ICB
⬇️
EMPRESAS TERCEIRIZADAS
⬇️
R$ 6,1 MILHÕES EM MOVIMENTAÇÕES INVESTIGADAS
⬇️
ANC / entidades ligadas a Karina
É justamente a conexão entre esses diferentes fluxos que tornou o caso tão grande.
O que ainda NÃO está comprovado?
É muito importante separar suspeita, investigação e prova.
Até 11 de setembro de 2026, não se pode afirmar definitivamente que:
❌ dinheiro público financiou o filme;
❌ Mario Frias desviou dinheiro;
❌ Karina Gama praticou lavagem de dinheiro;
❌ o filme foi financiado com dinheiro do contrato de Wi-Fi;
❌ Bolsonaro recebeu dinheiro público para a produção;
❌ todos os envolvidos participaram de uma organização criminosa.
O que existe são indícios e linhas de investigação apresentadas pela PF, CGU e decisões judiciais.
Mario Frias contesta as acusações e afirma que suas emendas foram utilizadas legalmente. A empresa Complexsys também nega ter utilizado dinheiro do Wi-Fi para financiar o filme. A Prefeitura de São Paulo afirma não ter identificado irregularidades na execução do contrato.