Naquela virada de ano, o telefone não tocou.
Durante meses, Júlia temeu exatamente isso. O hospital, as madrugadas sem dormir, os silêncios longos demais. Cada vibração ausente parecia um aviso. Mas, naquela noite, o silêncio era diferente. Era um silêncio que respirava.
A sala estava simples. Uma vela acesa, um prato a menos na mesa e uma cadeira que ninguém teve coragem de guardar. Júlia vestia branco, não por superstição, mas porque precisava acreditar em leveza. No bolso, carregava um bilhete escrito à mão, com a letra trêmula de quem se despede sem querer.
Às 23:58, ela foi até a janela. Lá fora, a cidade fazia festa. Risos, contagens regressivas, promessas gritadas ao céu. Júlia não contou os segundos. Contou as pessoas que amou e que a ensinaram a continuar mesmo depois de ir.
Quando os fogos explodiram, as lágrimas vieram sem aviso. Não de desespero — de memória. De tudo que foi vivido apesar da dor. De tudo que ainda pulsava.
Ela acendeu a vela nova usando a chama da antiga.
E naquele gesto pequeno, entendeu: o Ano Novo não apaga perdas.
Ele ensina a conviver com elas sem deixar de amar a vida.
À 00:01, o telefone continuou em silêncio.
E, pela primeira vez, isso significava paz. ✨