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CONTO DE ANO NOVO
Por Susi Hellen Spindola
Publicado em 31/12/2025 14:03
Dezembro

 

 

 

 

Naquela virada de ano, o telefone não tocou.

Durante meses, Júlia temeu exatamente isso. O hospital, as madrugadas sem dormir, os silêncios longos demais. Cada vibração ausente parecia um aviso. Mas, naquela noite, o silêncio era diferente. Era um silêncio que respirava.

A sala estava simples. Uma vela acesa, um prato a menos na mesa e uma cadeira que ninguém teve coragem de guardar. Júlia vestia branco, não por superstição, mas porque precisava acreditar em leveza. No bolso, carregava um bilhete escrito à mão, com a letra trêmula de quem se despede sem querer.

Às 23:58, ela foi até a janela. Lá fora, a cidade fazia festa. Risos, contagens regressivas, promessas gritadas ao céu. Júlia não contou os segundos. Contou as pessoas que amou e que a ensinaram a continuar mesmo depois de ir.

Quando os fogos explodiram, as lágrimas vieram sem aviso. Não de desespero — de memória. De tudo que foi vivido apesar da dor. De tudo que ainda pulsava.

Ela acendeu a vela nova usando a chama da antiga.

E naquele gesto pequeno, entendeu: o Ano Novo não apaga perdas.

 

Ele ensina a conviver com elas sem deixar de amar a vida.

À 00:01, o telefone continuou em silêncio.

E, pela primeira vez, isso significava paz. ✨

 

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