Na virada daquele ano, a chuva chegou antes dos fogos.
Pingos grossos apagaram faíscas, borraram maquiagens e espalharam gente embaixo de marquises improvisadas. Alguns reclamaram. Outros riram. O céu, parecia claro, tinha seus próprios planos para o recomeço.
Em um ponto de ônibus quase vazio, Clara segurava um guarda-chuva quebrado e uma carta que nunca teve coragem de entregar. Escrevera meses antes, quando o ano ainda parecia longo demais para acabar. Agora, as palavras pesavam menos — ou talvez ela estivesse mais forte.
Faltando poucos segundos para a meia-noite, um estranho ao lado dela contou os números em voz alta, errando de propósito, só para fazê-la sorrir. Quando o “zero” chegou, não houve explosão no céu, apenas o som da chuva batendo no asfalto quente.
Clara rasgou a carta em pedaços pequenos e deixou que a água levasse embora. Não porque não sentia mais — mas porque sentia diferente.
Às 00:03, os fogos finalmente apareceram, tímidos, atrasados. Clara já estava indo embora. Descobrira que alguns começos não fazem barulho.
Eles apenas acontecem. ️✨