A afirmação de que a cannabis medicinal não tem eficácia comprovada para tratar a insônia ganhou destaque recentemente por causa de uma revisão científica de alto nível publicada pela Colaboração Cochrane na terça-feira, 13 de outubro de 2026. É importante entender exatamente o que foi concluído — e o que isso não significa.
Os pesquisadores analisaram nove estudos clínicos com 537 adultos diagnosticados com insônia, comparando produtos à base de cannabis com placebo ou outros tratamentos. Os resultados mostraram que, em comparação com o placebo, a cannabis não produziu melhora significativa na qualidade do sono, no tempo total de descanso, na rapidez para dormir nem no desempenho durante o dia. Quem usou a cannabis relatou também mais efeitos adversos, como boca seca, tontura, cansaço e sonolência ao longo do dia. O nível de certeza das evidências foi classificado como muito baixo, principalmente porque os estudos eram pequenos, de curta duração e usavam formulações diferentes.
A conclusão central é que não há provas suficientes para recomendar a cannabis como tratamento da insônia. Isso não quer dizer que ela esteja comprovada como ineficaz — significa simplesmente que os dados existentes ainda não são bons o bastante para afirmar com segurança se funciona ou não.
Muita gente relata, de fato, sentir melhora ao usar produtos à base de cannabis. Essa percepção é real para quem sente, mas existe uma diferença importante entre a experiência pessoal e a comprovação científica. Quando o sono é medido com equipamentos precisos, os resultados são inconsistentes: em alguns casos há redução no tempo para dormir, mas também se verificam alterações na estrutura do sono, como a redução da fase REM, que é fundamental para a consolidação da memória. Há também um estudo que acompanhou pessoas por cerca de 35 anos e encontrou associação entre o uso de cannabis e pior qualidade do sono quando medido de forma objetiva, mesmo que os usuários não percebessem. O CBD isolado, muito vendido como auxiliar do sono, também não mostrou efeitos consistentes em ensaios controlados para insônia. A Academia Americana de Medicina do Sono já se posicionou de maneira semelhante, dizendo não haver provas sólidas para recomendar o uso de cannabis no tratamento do problema.
O tratamento com eficácia amplamente comprovada e recomendado como primeira opção é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia, conhecida como TCC-I, que traz resultados duradouros. Medicamentos podem ser usados em casos específicos, sempre com orientação médica.