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VACINA CONTRA NICOTINA?
Por JOAO BISPO
Publicado em 04/09/2026 17:14
Saúde

Como funcionaria?

A ideia é bastante interessante: em vez de impedir a pessoa de sentir vontade de fumar, a vacina faria o sistema imunológico produzir anticorpos contra a nicotina.

Esses anticorpos se ligariam às moléculas de nicotina no sangue, formando complexos maiores. Assim, menos nicotina conseguiria atravessar a barreira hematoencefálica e chegar ao cérebro. Consequentemente, a sensação de recompensa provocada pela nicotina poderia ser reduzida.

A lógica seria:

Pessoa fuma → nicotina entra no sangue → anticorpos “capturam” parte da nicotina → menos nicotina chega ao cérebro → menor efeito de recompensa.

A intenção seria tornar o cigarro menos prazeroso e menos reforçador, facilitando a interrupção do vício.

Já foi testada em seres humanos?

Sim.

Uma candidata chamada Nicotine-Qβ foi testada em um estudo clínico com 341 fumantes. A vacina produziu anticorpos contra a nicotina, mas o estudo não demonstrou uma vantagem estatisticamente significativa para abstinência contínua na população analisada como um todo. Um subgrupo que produziu níveis muito altos de anticorpos apresentou resultados melhores, mas isso não foi suficiente para transformar a vacina em tratamento estabelecido.

Outra candidata, NicVAX, também foi estudada em ensaios clínicos. Novamente, os resultados sugeriram que pessoas que produziam níveis muito elevados de anticorpos poderiam ter maior chance de parar, mas os estudos maiores não demonstraram eficácia suficiente para aprovação.

Então existe uma vacina que você pode tomar hoje?

Não.

Revisões dos estudos clínicos concluíram que não havia evidência suficiente de que as vacinas contra nicotina aumentassem a taxa de abandono do cigarro a longo prazo, e nenhuma vacina contra nicotina havia sido licenciada para uso público.

E por que é tão difícil?

Porque a dependência de nicotina não é apenas química.

Mesmo que você reduza a quantidade de nicotina chegando ao cérebro, continuam existindo:

  • hábito de fumar;
  • gatilhos emocionais;
  • ansiedade e estresse;
  • associação com café, álcool ou determinadas situações;
  • sintomas de abstinência;
  • comportamento compulsivo.

Além disso, existe um problema técnico: as pessoas produzem quantidades diferentes de anticorpos. Nos estudos, quem desenvolveu uma resposta imunológica muito forte pareceu ter maior benefício, enquanto outros participantes não tiveram proteção suficiente.

Uma curiosidade

A proposta é diferente de adesivos, chicletes e medicamentos para parar de fumar.

Adesivo de nicotina: fornece nicotina de maneira controlada para reduzir abstinência.

Medicamentos como vareniclina: atuam nos mecanismos cerebrais envolvidos na dependência.

Vacina contra nicotina: tentaria fazer o próprio sistema imunológico “sequestrar” a nicotina antes que ela chegue ao cérebro.

 

É uma ideia que existe há décadas, mas a ciência ainda não conseguiu transformá-la em uma vacina eficaz e aprovada para tratamento da dependência

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