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LITERATURA NO SETEMBRO AMARELO: VIRGINIA WOOLF
Por JOAO BISPO
Publicado em 07/09/2026 10:06
Literatura



Virginia Woolf é um dos casos mais complexos da história da literatura quando se fala em saúde mental, criatividade e sofrimento psíquico. É importante não reduzir sua vida ao suicídio: ela foi uma escritora extraordinariamente inovadora, mas passou décadas enfrentando episódios graves de doença mental.

A saúde mental de Virginia Woolf
Hoje, muitos estudos descrevem o quadro de Woolf como compatível com transtorno bipolar grave, embora seja importante lembrar que ela não recebeu esse diagnóstico nos termos da psiquiatria moderna. Pesquisadores identificam, em seus relatos e nos testemunhos de pessoas próximas, períodos de depressão profunda, agitação, alterações intensas de humor e episódios psicóticos.
Ela teve episódios graves ao longo de praticamente toda a vida adulta. Em alguns deles, apresentou sintomas como alucinações, dificuldade de concentração e perda de contato com a realidade. Também passou por internações e tratamentos que hoje são considerados bastante rudimentares.
Um aspecto particularmente doloroso é que Woolf tinha consciência de suas recaídas. Ela conhecia a sensação de estar entrando novamente em uma crise e tinha medo de passar por aquilo outra vez.

Qual é a obra mais dolorosa?
Se a pergunta é qual obra mais profundamente relacionada ao sofrimento psicológico de Woolf, Mrs. Dalloway (1925) é provavelmente a escolha mais forte.
O romance acompanha Clarissa Dalloway durante um único dia em Londres, mas apresenta também Septimus Warren Smith, um veterano da Primeira Guerra Mundial que sofre intensamente com suas experiências traumáticas.
A obra aborda temas como:

depressão;

trauma de guerra;

isolamento;

pensamentos de morte;

dificuldade de ser compreendido;

inadequação dos tratamentos psiquiátricos da época;

distância entre aquilo que uma pessoa sente e aquilo que os outros conseguem enxergar.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo já analisaram especificamente a relação entre a história médica de Woolf e Mrs. Dalloway, inclusive os aspectos relacionados às experiências psicóticas e à percepção do tempo.

Mas existe outra obra ainda mais íntima: Ao FarolAo Farol (1927) é frequentemente considerado seu romance mais autobiográfico. O livro trabalha intensamente com luto, memória, família, passagem do tempo e ausência.
A personagem Mrs. Ramsay é associada à memória da mãe de Woolf, que morreu quando Virginia tinha apenas 13 anos.
Estudos literários apontam Ao Farol como uma das obras em que a dimensão psicológica da experiência de Woolf aparece de maneira particularmente profunda.
Por isso, eu diria:

Mais dolorosa psicologicamente: Mrs. Dalloway

Mais autobiográfica e ligada ao luto: Ao Farol

️ Por que Virginia Woolf morreu por suicídio?
Não existe uma única resposta.
E é importante não dizer simplesmente que ela “se matou por causa da depressão” ou “por causa da guerra”. O suicídio foi resultado de um quadro complexo e recorrente de sofrimento mental, e não podemos reconstruir exatamente o que aconteceu dentro dela.
Em março de 1941, Woolf percebeu que estava entrando novamente em uma crise grave. Em uma carta deixada para o marido, Leonard Woolf, ela escreveu que acreditava estar “ficando louca novamente” e mencionou que estava ouvindo vozes e não conseguia se concentrar.
Ela também expressou medo de não conseguir sobreviver a mais um episódio como os anteriores.
Em 28 de março de 1941, aos 59 anos, Virginia Woolf morreu por suicídio.

O detalhe mais triste
A carta que deixou para Leonard não é apenas uma despedida. Ela também revela amor, gratidão e a percepção de que estava se tornando novamente incapaz de lidar com o próprio sofrimento.
Isso torna a história ainda mais complexa: Virginia não morreu porque sua vida não tivesse momentos de felicidade. Pelo contrário, sua própria carta reconhece o amor e a felicidade que viveu com Leonard.
O que aparece ali é uma pessoa que acreditava estar diante de outra crise devastadora e que, naquele momento, não conseguia enxergar uma saída.

E existe uma lição importante na história de Woolf
É perigoso transformar Virginia Woolf em um símbolo romântico da ideia de que “gênios sofrem” ou que o sofrimento produz grandes obras.
Ela foi uma escritora brilhante apesar de seu sofrimento, não porque sofreu.
Sua literatura nos permite enxergar por dentro experiências como depressão, isolamento, trauma e luto de uma maneira extraordinariamente humana. E talvez seja justamente por isso que, mais de 80 anos depois de sua morte, seus livros ainda conseguem fazer leitores reconhecerem sentimentos que muitas vezes são difíceis de colocar em palavras.

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