A chamada “morte macabra” de focas na Ilha Sable intrigou cientistas durante décadas. Centenas de carcaças apareciam nas praias com cortes espiralados e extremamente limpos, como se os animais tivessem sido “desenrolados” da pele. No começo, muitos pesquisadores suspeitaram de ataques violentos de grandes tubarões — e até de comportamento canibal entre as próprias focas.


Pesquisas posteriores mostraram que os principais responsáveis provavelmente eram tubarões-da-Groenlândia, uma espécie gigante de águas frias e profundas. Esses animais conseguem arrancar grandes porções de carne das focas, deixando marcas em formato de “saca-rolhas”. Um estudo que analisou milhares de corpos de focas na ilha encontrou evidências de que dois tipos de tubarão estavam envolvidos: o tubarão-branco e o tubarão-da-Groenlândia.
Os cientistas observaram que o número de mortes aumentou muito nos anos 1990, afetando inclusive o crescimento populacional das focas da região. Em alguns períodos, quase metade dos filhotes podia morrer por ataques relacionados a tubarões.
O aspecto mais chocante da história veio quando pesquisadores começaram a investigar se parte dessas mortes também poderia envolver canibalismo. Em outras colônias de focas-cinzentas na Europa, por exemplo, já foram registrados adultos matando filhotes da própria espécie para se alimentar — algo considerado raríssimo entre mamíferos marinhos.





Hoje, a hipótese mais aceita para a Ilha Sable combina diferentes fatores:
-
ataques de tubarões em águas frias do Atlântico Norte;
-
necrofagia (animais se alimentando de corpos já mortos);
-
e, em casos isolados, comportamento canibal entre focas.
O caso ganhou fama justamente porque as marcas nos corpos eram tão incomuns que muitos pesquisadores inicialmente acharam impossível que fossem produzidas naturalmente. A investigação virou um dos mistérios mais curiosos da biologia marinha moderna.