
Os bastidores estranhos e as histórias assustadoras do clássico
“O Iluminado” (The Shining), dirigido por Stanley Kubrick e baseado no romance de Stephen King, chegou aos cinemas em 1980 e se tornou um dos filmes de terror mais discutidos da história.
A história acompanha Jack Torrance (Jack Nicholson), que aceita trabalhar como zelador do isolado Hotel Overlook durante o inverno. Ele vai para o hotel com a esposa, Wendy, e o filho Danny — mas o isolamento e os acontecimentos sobrenaturais fazem a situação se transformar em um pesadelo.
O mais curioso é que a própria produção ficou cercada de histórias bastante perturbadoras.
1. O cenário do hotel realmente pegou fogo
Um dos acontecimentos mais impressionantes dos bastidores foi um incêndio no enorme cenário construído para representar o Hotel Overlook nos estúdios Elstree, na Inglaterra.
O conjunto usado para o Colorado Lounge foi destruído pelo fogo em fevereiro de 1979. A iluminação utilizada para simular a luz entrando pelas janelas era extremamente potente e gerava muito calor.
O incêndio provocou um atraso significativo na produção, e o cenário precisou ser reconstruído.
Coincidência macabra: depois de reconstruído e posteriormente desmontado, parte da área do estúdio seria utilizada em Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), incluindo o cenário associado ao Poço das Almas.
2. Shelley Duvall passou por uma filmagem extremamente desgastante
A atriz Shelley Duvall, que interpreta Wendy, enfrentou uma produção particularmente exigente.
Kubrick era conhecido por exigir inúmeras repetições das cenas. A famosa sequência em que Wendy sobe as escadas enquanto enfrenta Jack com um taco de beisebol ficou célebre pela enorme quantidade de tomadas.
O número tradicionalmente divulgado é 127 tomadas, embora existam controvérsias entre pesquisadores e membros da equipe sobre qual cena realmente teve mais repetições.
Duvall posteriormente contou que aquela sequência foi filmada durante cerca de três semanas e descreveu a experiência como muito difícil.
3. O perfeccionismo de Kubrick virou parte da lenda
Kubrick tinha fama de extremamente meticuloso.
As filmagens começaram em 1978 e terminaram em 1979, e a produção ficou conhecida pelo grande número de tomadas e pelo tempo gasto aperfeiçoando cenas.
O método do diretor ajudou a criar a atmosfera de tensão do filme, mas também tornou os bastidores particularmente intensos para parte do elenco.
Existe até uma disputa histórica sobre qual cena teve o maior número de tomadas: o Guinness chegou a registrar números extraordinários para determinadas sequências, enquanto pesquisadores posteriormente questionaram esses registros.
4. A porta quebrada por Jack Nicholson era de verdade
Uma das cenas mais famosas mostra Jack destruindo a porta do banheiro com um machado.
A equipe inicialmente utilizou uma porta que deveria ser facilmente quebrada. Porém, Jack Nicholson conseguiu destruí-la rápido demais porque tinha experiência anterior como bombeiro voluntário e conhecia técnicas para arrombar portas.
A equipe precisou construir uma porta mais resistente.
E então surgiu uma das frases mais famosas do cinema:
“Here's Johnny!”
Nicholson improvisou a fala, fazendo referência à famosa introdução do programa de televisão apresentado por Johnny Carson. Kubrick inicialmente não conhecia a referência e quase descartou aquela tomada.
5. Danny Lloyd nem sabia que estava fazendo um filme de terror
Esse é um dos fatos mais curiosos.
Danny Lloyd, que interpretou Danny Torrance, era uma criança quando participou do filme.
Kubrick tomou cuidado para protegê-lo do conteúdo assustador. Segundo relatos, Lloyd não sabia que estava participando de um filme de terror.
O diretor procurou preservar a criança durante as gravações e manteve uma relação próxima com ele.
O resultado é ainda mais perturbador porque muitas das cenas de Danny parecem extremamente naturais.
6. As gêmeas do corredor têm uma história curiosa
As assustadoras meninas que aparecem no corredor do hotel são conhecidas como as Grady Twins.
Elas se tornaram uma das imagens mais reconhecíveis do terror cinematográfico.
Curiosamente, no livro de Stephen King, as filhas de Grady não são exatamente apresentadas da mesma maneira que no filme. Kubrick transformou a imagem das duas meninas em um dos símbolos mais perturbadores do longa.
A cena em que elas convidam Danny para brincar ficou tão famosa que passou a representar visualmente o próprio filme.
7. O quarto 237 não existia no hotel utilizado nas filmagens
O exterior do hotel foi inspirado no Timberline Lodge, no Oregon.
No livro de Stephen King, o quarto assombrado é o 217. Para o filme, Kubrick utilizou o número 237.
Uma explicação frequentemente repetida é que a administração do Timberline Lodge teria pedido que o número 217 não fosse utilizado para evitar que hóspedes reais ficassem assustados com a associação ao filme.
O detalhe curioso é que o quarto 237 não existe naquele hotel.
8. Kubrick exibiu outro filme de terror para a equipe
Durante a produção, Kubrick exibiu “Eraserhead” (1977), de David Lynch, para membros do elenco e da equipe.
A intenção era ajudar a transmitir o tipo de atmosfera que ele queria para O Iluminado.
Isso acabou alimentando ainda mais a fama de Kubrick como um diretor obcecado pela criação de atmosferas psicológicas desconfortáveis.
9. A bola de tênis que Jack joga pelo hotel
Uma das imagens mais estranhas é a de Jack brincando com uma bola de tênis dentro do hotel vazio.
O detalhe curioso é que a ideia de utilizar a bola teria partido do próprio Jack Nicholson. A cena ajuda a mostrar a deterioração psicológica do personagem sem precisar de uma explicação direta.
O silêncio do hotel, a bola atravessando o corredor e a expressão de Nicholson criam uma das sequências mais inquietantes do filme.
10. O elevador cheio de sangue
A sequência em que uma enorme quantidade de sangue parece sair dos elevadores tornou-se uma das imagens mais famosas do cinema de terror.
O efeito foi realizado de maneira prática, com uma enorme quantidade de líquido sendo utilizada para criar a inundação de sangue.
Curiosamente, essa sequência foi uma das filmadas fora da ordem cronológica planejada para grande parte da produção.
E as supostas "coisas sobrenaturais" no set?
Aqui é importante separar fato de lenda.
Depois do lançamento do filme, começaram a circular histórias de que os estúdios Elstree teriam ficado "assombrados" durante as filmagens e que acontecimentos inexplicáveis teriam ocorrido.
Essas histórias ajudaram a criar uma espécie de lenda sobre a produção, mas não existem evidências confiáveis de que fenômenos sobrenaturais tenham acontecido no set.
O incêndio, o desgaste das filmagens e o comportamento extremamente perfeccionista de Kubrick são acontecimentos documentados. Já histórias sobre "energias malignas", fantasmas e acontecimentos paranormais pertencem principalmente ao folclore criado em torno do filme.
️ O mais macabro em O Iluminado
Talvez o aspecto mais perturbador seja justamente a mistura entre ficção e realidade.
Um cenário gigantesco pegou fogo.
Uma atriz passou semanas repetindo uma das cenas mais intensas.
Uma criança participou de um filme de terror sem compreender completamente o que estava fazendo.
Um diretor extremamente perfeccionista exigiu incontáveis tomadas.
E várias imagens do filme acabaram se tornando símbolos permanentes do terror.
Por isso, a história dos bastidores de O Iluminado é quase tão fascinante quanto a própria história do Hotel Overlook.
E existe uma ironia assustadora: o filme fala sobre um homem lentamente perdendo o controle dentro de um lugar isolado, enquanto sua produção também ficou famosa pelo nível extremo de tensão e exigência nos bastidores.
