A comparação com a Lei Rouanet brasileira está circulando porque Donald Trump passou a defender, nos últimos dias, a criação de um incentivo fiscal federal para filmes e séries produzidos nos Estados Unidos.
Mas há uma diferença importante: Trump não está propondo copiar literalmente a Lei Rouanet. A ideia é criar um mecanismo americano de incentivo à produção audiovisual por meio de créditos tributários. E, até agora, trata-se de uma proposta que precisa passar pelo Congresso.
Por que Trump quer fazer isso?
Hollywood perdeu uma parcela significativa das filmagens para outros lugares.
Países como Reino Unido, Canadá, Austrália e Irlanda oferecem incentivos fiscais para atrair produções internacionais. Além disso, dentro dos próprios EUA, estados como Geórgia e Nova York criaram programas para convencer estúdios a filmar localmente.
Trump argumenta que isso está fazendo os empregos e investimentos da indústria cinematográfica americana migrarem para fora do país.
Como funcionaria?
A proposta é criar um crédito tributário federal.
Simplificando:
Um estúdio produz um filme nos EUA.
Contrata atores, técnicos, maquiadores, figurinistas, cenógrafos, empresas de transporte, alimentação etc.
Mantém parte dos gastos dentro do território americano.
Em contrapartida, o governo permitiria que uma parcela desses custos fosse abatida dos impostos.
Ou seja, não necessariamente seria o governo simplesmente entregando dinheiro ao estúdio.
Seria principalmente uma forma de reduzir a carga tributária de produções que cumpram determinados requisitos.
A proposta em discussão prevê algo na faixa de 15% a 20% de incentivo federal, embora o desenho final ainda não esteja fechado.
Então é igual à Lei Rouanet?
Não.
A comparação serve para facilitar o entendimento, mas os mecanismos são diferentes.
Na Lei Rouanet brasileira, um projeto cultural aprovado pode receber autorização para captar recursos com incentivo fiscal, permitindo que empresas e pessoas físicas destinem parte do imposto devido a projetos culturais, dentro das regras estabelecidas.
No caso americano defendido por Trump, a proposta é mais diretamente voltada para reduzir impostos de produções audiovisuais que sejam realizadas nos EUA.
Por isso, chamar de “Lei Rouanet americana” é uma comparação jornalística/política, e não o nome oficial de uma lei americana.
E por que Hollywood precisa desse incentivo?
Porque filmar um grande longa-metragem pode custar centenas de milhões de dólares.
Se uma produção descobre que consegue economizar milhões filmando no Canadá ou no Reino Unido, por exemplo, o estúdio tem um enorme incentivo econômico para sair da Califórnia.
Um exemplo famoso é Wicked, produção americana que foi filmada no Reino Unido.
Outro é Barbie, que também teve parte da produção realizada em estúdios britânicos.
O Reino Unido é um dos concorrentes
O Reino Unido possui incentivos fiscais importantes para produções cinematográficas.
Outros países também oferecem mecanismos semelhantes.
A lógica é simples:
“Se você gastar dinheiro aqui, contratar trabalhadores daqui e produzir aqui, nós reduzimos seus impostos.”
Isso gera empregos e movimenta hotéis, restaurantes, transporte, construção, empresas de efeitos especiais, aluguel de equipamentos e dezenas de outros setores.
Mas Trump tinha uma ideia completamente diferente antes
Aqui está a parte mais interessante.
Em maio de 2025, Trump havia anunciado uma proposta muito mais agressiva:
TARIFA DE 100% SOBRE FILMES PRODUZIDOS FORA DOS EUA.
A justificativa era justamente combater a transferência de produções para outros países.
Trump dizia que Hollywood estava sofrendo uma espécie de fuga de produção e que os incentivos oferecidos por outros países estavam prejudicando a indústria americana.
A ideia provocou enorme preocupação em Hollywood.
Isso porque muitos filmes americanos são produzidos parcialmente ou integralmente no exterior.
E qual foi a mudança?
Em vez de simplesmente punir quem filma fora, a proposta atual busca premiar quem filma dentro dos EUA.
É uma mudança importante de estratégia.
Antes:
❌ “Filme fora dos EUA → pode sofrer uma tarifa de 100%.”
Agora:
✅ “Filme nos EUA → recebe incentivo fiscal.”
Essa segunda alternativa é vista pela indústria como muito mais prática.
Trump pediu ao Congresso que aprove um incentivo federal para estimular a produção doméstica de filmes, televisão e entretenimento.
Quem está apoiando?
A proposta recebeu apoio de setores importantes da própria indústria.
A Motion Picture Association, sindicatos e organizações ligadas ao audiovisual demonstraram interesse em um incentivo federal.
O ator Jon Voight, escolhido por Trump como um dos seus representantes especiais para Hollywood, participou das articulações pela proposta.
E existe uma ironia política:
Hollywood tradicionalmente é associada ao Partido Democrata.
Mesmo assim, sindicatos e empresas do setor podem apoiar uma política de Trump porque ela representa empregos e produção dentro dos EUA, independentemente da disputa partidária.
Quem pagaria essa conta?
Aqui está uma das principais críticas.
Um crédito tributário significa, na prática, que o governo arrecadará menos impostos das empresas beneficiadas.
Os defensores respondem:
“O governo deixa de arrecadar uma parte, mas recupera isso com empregos, salários, consumo e atividade econômica.”
Os críticos perguntam:
“E se o governo estiver simplesmente dando desconto de impostos para grandes estúdios que já fariam seus filmes nos EUA?”
Esse é um dos grandes desafios para desenhar a legislação.
E os atores milionários?
Essa também é uma questão política.
Uma preocupação levantada por críticos é que o incentivo poderia acabar beneficiando grandes estúdios e estrelas extremamente bem remuneradas.
Os defensores argumentam que uma produção cinematográfica não envolve apenas o ator principal.
Existe uma enorme cadeia de trabalhadores:
operadores de câmera
técnicos de som
maquiadores
figurinistas
️ cenógrafos
motoristas
️ equipes de alimentação
técnicos de iluminação
produtores
️ profissionais de efeitos visuais
Por isso, o argumento é que o benefício econômico ultrapassaria as celebridades.