
Laura Cardoso, nome artístico de Laurinda de Jesus Cardoso, foi uma das maiores e mais longevas atrizes da história do Brasil. Nascida em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, ela construiu uma carreira de mais de oito décadas no rádio, teatro, televisão e cinema. Laura morreu em 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo.
Infância e início da carreira
Filha de imigrantes portugueses, Laura cresceu no bairro do Bixiga, em São Paulo. Desde criança gostava de brincar de teatro e demonstrava interesse pela interpretação.
Aos 15 anos, em 1942, começou profissionalmente no rádio, trabalhando em radionovelas da Rádio Cosmos. Na época, seguir carreira artística era visto com preconceito, especialmente para uma jovem mulher.
Foi justamente no rádio que ela adotou o nome artístico Laura Cardoso, abandonando o nome Laurinda, considerado pouco adequado para a carreira artística.
Uma das pioneiras da televisão brasileira
Laura fez parte da primeira geração de artistas que ajudaram a construir a televisão no Brasil.
Em 1952, estreou na TV Tupi, no programa Tribunal do Coração. Naquele período, a televisão ainda estava dando seus primeiros passos no país e muitos programas eram transmitidos ao vivo.
Ela passou por emissoras como TV Tupi, Record e Bandeirantes, antes de chegar à Globo em 1981, convidada pelo diretor Daniel Filho. Sua estreia na emissora foi em Brilhante, de Gilberto Braga.
⭐ Grandes personagens
Ao longo de décadas, Laura participou de dezenas de novelas, séries, minisséries, teleteatros e filmes.
Entre seus trabalhos mais lembrados estão:
- Mulheres de Areia
- A Viagem
- Chocolate com Pimenta
- Caminho das Índias
- Sol Nascente
- Gabriela
- Livre para Voar
- Salsa e Merengue
- A Dona do Pedaço
Sua última novela foi A Dona do Pedaço (2019), na qual interpretou Matilde Azevedo.
Ela também trabalhou no cinema e chegou a participar de cerca de 30 longas-metragens, além de trabalhos no teatro.
️ Laura também foi dubladora
Uma curiosidade pouco conhecida é que Laura deu voz à Betty Rubble, de Os Flintstones, na versão brasileira do desenho durante os anos 1960.
Ela revelou posteriormente que tinha um carinho especial pelo trabalho de dublagem.
Prêmios e reconhecimento
Laura recebeu alguns dos principais reconhecimentos destinados a artistas brasileiros.
Entre eles estão:
- Ordem do Mérito Cultural, em 2006;
- Troféu Oscarito, no Festival de Gramado;
- Troféu Mário Lago, pelo conjunto da carreira;
- três estatuetas do Grande Otelo;
- uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, inaugurada em 2025.
Seu reconhecimento ultrapassou gerações. O ator Tony Ramos, que trabalhou com ela desde os tempos da TV Tupi, chamou Laura de “a rainha da TV” ao lamentar sua morte.
❤️ Vida pessoal
Laura foi casada apenas uma vez. Em 1949, casou-se com o ator, diretor, roteirista e produtor Fernando Balleroni, que conheceu no meio artístico.
O casal teve duas filhas, Fátima Carolina Balleroni Leite e Fernanda Balleroni. Laura também teve um filho, José, que morreu apenas três dias depois de nascer.
Fernando morreu em 1980, aos 57 anos. Depois da morte do marido, Laura não voltou a se casar.
Ela manteve uma relação bastante próxima com as filhas, que também participaram de diferentes momentos de sua trajetória. Fátima colaborou na preservação da memória artística da mãe, enquanto Fernanda chegou a atuar como sua empresária.
Laura também deixou duas netas, Cláudia e Adriana, e um bisneto, Fernando Faria, que esteve muito próximo dela nos últimos anos e administrava suas redes sociais.
Uma atriz que não queria se aposentar
Uma das características mais marcantes de Laura era sua recusa em abandonar a profissão por causa da idade.
Mesmo depois dos 90 anos, ela dizia que não queria ser vista simplesmente como uma idosa aposentada. Continuava defendendo a importância do trabalho artístico e afirmava que não conseguia viver sem teatro, televisão e cinema.
Em entrevista à Folha, aos 96 anos, resumiu sua relação com a profissão dizendo que amava representar e que ainda acreditava ter coisas a aprender.
O legado
Mais do que uma atriz de novelas, Laura Cardoso foi testemunha e protagonista da própria evolução da dramaturgia brasileira.
Ela começou no rádio quando a televisão ainda não existia no país, participou dos primeiros anos da TV Tupi, atravessou diferentes gerações de televisão e continuou trabalhando quando muitos de seus contemporâneos já haviam se aposentado.
Sua trajetória representa mais de 80 anos de dedicação à arte brasileira — e seu legado permanece em personagens, filmes, novelas e, principalmente, na formação de gerações de atores.
A morte de Laura Cardoso encerra uma das mais impressionantes carreiras da dramaturgia brasileira, mas também deixa uma história rara: a de uma mulher que praticamente atravessou toda a história da televisão brasileira sem deixar de amar o ofício de atriz.