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MULHERES NA LITERATURA: MARGARET ATWOOD
Por Susi Hellen Spindola
Publicado em 24/03/2025 09:00
Literatura

Margaret Atwood

 

Embora seja considerada uma das maiores novelistas do Canadá e leitura obrigatória nos países de língua inglesa, Margaret Atwood só se tornou sensação no mundo todo em 2017.

Isso porque dois de seus livros, O Conto da Aia (publicado em 1985) e Vulgo Grace (publicado em 1996) ganharam adaptações para TV no Hulu e na Netflix, respectivamente. 

 

Em tempos de Donald Trump e ameaças de regressão nos direitos das mulheres, não é exagero temer que o cenário descrito por Atwood um dia vire realidade. Mas ela rejeita o rótulo de profeta. Para ela, a ficção científica, ou especulativa, como prefere chamar, nada mais é do falar sobre o agora — há muitas possibilidades de futuro e nunca poderemos saber ao certo qual teremos. 

A seguir, entenda melhor o trabalho e pensamentos da autora:

 

Há embasamentos reais para O Conto da Aia

 

Em uma das mais de 400 caixas que contêm os materiais da autora e estão no arquivo da Universidade de Toronto, estão recortes de jornais com histórias que serviram de embasamento para O Conto da Aia.

Há reportagens sobre a queda nos nascimentos no Canadá, sobre a proibição do aborto e da pílula anticoncepcional na Romênia, sobre as tentativas republicanas nos Estados Unidos de retirar financiamento federal das clínicas de aborto e sobre a preocupação com emissão de gases tóxicos.

 

Há um texto, inclusive, sobre uma congregação católica de Nova Jersey que se transformou numa seita na qual as esposas eram chamadas “handmaidens” — palavra sublinhada por Atwood na época.

Já o ritual de procriação na história foi retirado de uma passagem bíblica.

Mais do que questionar se o que é mencionado no livro pode um dia acontecer, a autora sugere que tudo já aconteceu em algum lugar, em alguma época.

 

Ficção especulativa

É assim que ela prefere que suas histórias de ficção e fantasia sejam chamadas, em vez de ficção científica. “Não é que eu não goste dos marcianos… Eles simplesmente não fazem parte da minha lista de talentos”, escreveu na introdução de In Other Worlds: SF and the Human Imagination, uma coleção de ensaios publicada em 2011, sem tradução para o português.

 

Ela resiste em ser chamada de feminista

Isso pode ser surpreendente, visto que seu trabalho é leitura obrigatória para o estudo de gênero e que ela é comprometida com a causa dos direitos das mulheres. Na verdade, sua resistência vem mais de uma necessidade de compreender bem o termo antes de adotá-lo.

Na visão de Atwood, os direitos das mulheres são direitos humanos, o que vem do fato de ela ter crescido com uma presunção de absoluta igualdade entre os sexos.

“Meu problema não era que as pessoas quisessem que eu usasse vestidos cor de rosa, e sim que eu queria usar os vestidos, mas minha mãe não via nenhum motivo para isso”, disse em entrevista à revista New Yorker.

 

Sua inspiração vem da sociedade, não da sua própria vida

Na metade dos anos 1980, antes mesmo de escrever O Conto da Aia, mas já considerada a romancista mais importante do Canadá, um documentarista chamado Michael Rubbo acompanhou Atwood e sua família em um retiro de férias no Quebec.

A ideia era descobrir a fonte de inspiração para temas são sombrios e distópicos. Em vão.

No próprio documentário, Atwood afirma: “O problema dele é que ele acha que sou misteriosa e um problema a ser resolvido… Ele está tentando descobrir por que alguns dos meus trabalhos são um pouco sombrios, digamos assim, e busca uma explicação simples para isso em mim ou na minha vida, em vez de na sociedade que eu busco retratar".

 

Ela tem esperança no futuro

Ao contrário dos cenários distópicos que seus livros sugerem, Atwood mantém esperança no futuro.

Ela foi a primeira autora a participar de um projeto de arte conceitual chamado “Biblioteca Futura”, concebido pela artista escocesa Kate Paterson.

A ideia é de que em 100 anos, 100 escritores contribuam com um manuscrito para o projeto.

Eles permanecerão não lidos, a não ser pelo título (o de Atwood é Scribbler Moon), até 2114.

Serão então impressos em papel feito com mil pinos plantados em uma floresta na Noruega não longe de Oslo, onde a biblioteca ficará.

“É uma questão de esperança e de fé, mais do que conhecimento. Você sempre terá esperança de que hoje vai haver uma girafa onde ontem não havia”, disse em entrevista.

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