Elena Ferrante não publicou nada durante dez anos após o primeiro livro


Elena Ferrante começou a escrever histórias quando tinha apenas 13 anos, mas o hábito só se tornou permanente já na casa dos vinte.
Isto de acordo com a própria, numa entrevista concedida ao New York Times.
A italiana publicou o seu primeiro livro, Um Estranho Amor, em 1992.
“Começou a vender de imediato, graças ao boca-a-boca dos leitores que o descobriram e apreciaram a escrita e aos críticos que escreveram positivamente sobre ele”, explica a autora.
“Então o realizador Mario Martone leu-o e transformou-o num filme memorável [Vítima e Carrasco].
Isto ajudou o livro, mas também desviou as atenções da comunicação social para a minha pessoa. Parcialmente por essa razão, não voltei a publicar nada nos dez anos que se seguiram.”
Elena Ferrante não se considera uma autora anónima
É o elefante na sala quando falamos desta italiana.
É que “Elena Ferrante” não passa de um pseudónimo. Apesar de já ter inspirado muitos debates e teorias, a verdadeira identidade da autora permanece oficialmente desconhecida.
Esta opção pelo secretismo foi tomada após a publicação do seu segundo livro, Os Dias do Abandono.
“O sucesso deste livro e do filme que foi feito a partir dele centraram ainda mais as atenções na ausência de um autor.
Foi então que decidi separar definitivamente a minha vida privada da vida pública dos meus livros”, explica a escritora.
“Posso dizer, com um certo orgulho, que no meu país os títulos dos meus romances são mais conhecidos do que o meu nome.”
E, no entanto, Elena Ferrante não se considera uma autora anónima: “Eu não escolhi o anonimato, os livros são assinados. Escolhi, isso sim, a ausência.”
Elena Ferrante é italiana mas não um estereótipo
Se a identidade é desconhecida, a nacionalidade não merece dúvidas:
Elena Ferrante é assumidamente italiana de gema.
O que não significa que se reveja naquilo que outras pessoas consideram um italiano típico.
“A pizza não me cai bem, como muito pouco esparguete, não falo alto, não gesticulo, detesto todo o tipo de máfia, não exclamo ‘Mamma mia!’”, deixa claro a autora.
Acrescenta que, apesar de amar o seu país, não sente propriamente espírito patriótico ou orgulho nacional: “Ser italiana, para mim, começa e acaba com o facto de falar e escrever na língua italiana.”
Quem é Elena Ferrante?
Elena Ferrante é um pseudônimo que vendeu mais de 16 milhões de cópias traduzidas para mais de 48 países.
O primeiro título, Um amor incômodo, foi lançado em 1992, contudo, o sucesso veio apenas 19 anos depois com a tetralogia Amiga Genial. Porém, mesmo com números impressionantes, sua identidade verdadeira ainda é desconhecida.
Devido ao profundo conhecimento sobre os costumes, o dialeto, as tradições, geografia e história da cidade de Nápoles na década de 1960.
Acredita-se que Elena Ferrante seja uma pessoa nascida e criada no local e possua a idade cronológica de 50 anos aproximadamente.
Ainda, pela narrativa e a construção das personagens, essencialmente femininas e complexas, especula-se ser uma mulher.
Amiga Genial foi um estrondoso sucesso, sendo adaptada para uma série lançada pela HBO.
Logo, a curiosidade do público sobrepôs o direito à intimidade e iniciou-se uma investigação para descobrir mais sobre a identidade da autora.
Mesmo com todo o cuidado para evitar uma possível revelação, respondendo às perguntas por escrito e enviando e-mails no meio da madrugada, em 2016, uma reportagem do jornalista Claudio Gatti para o New York Times Review of Books revelou que a Elena Ferrante era Anita Raja.
Quem é Anita Raja – a suposta Elena Ferrante
A reportagem destaca com detalhes como foi realizada a investigação que rastreou as transações bancárias de Anita Raja e seu marido, o também autor, Domenico Starnonne durante a compra de uma casa. Ambos possuem vínculos empregatícios com a editora Edizioni, responsável pela publicação dos livros de Ferrante.
Segundo o jornalista, os valores eram muito elevados para que Raja fosse apenas uma tradutora e não uma escritora de sucesso mundial.
Além disso, o apelido do esposo de Raja é Nino – um dos personagens principais da saga.
Mas Raja negou publicamente.
Assim, a revelação da suposta identidade levantou uma série de debates sobre a invasão de privacidade e os dilemas éticos da exposição do anonimato.
Talvez nunca saberemos ao certo quem é ou não Elena Ferrante.
Mas, o que se sabe com certeza é que, em quase três décadas de obras publicadas, a autora segue fiel a um mesmo projeto.
Elena Ferrante, independentemente do seu nome verdadeiro, é uma pessoa bem real, a qual mistura-se com as personagens femininas Lenus (a da Tetralogia e a garotinha de A filha perdida), Lila, Elena, Leda, Nina, Olga, Delia, tanto em seus romances específicos quanto no grande emaranhado que é a magnitude.
A complexidade da construção das protagonistas, inversas em uma narrativa densa, cercada de contextos sociopolíticos e históricos, fez com que a escrita fosse tema do novo romance, “Às Margens e o Ditado” – Sobre os prazeres de ler e escrever – lançado em 2023.
Assim, um dos títulos mais aguardados deste ano, reúne quatro breves ensaios onde a autora explora com detalhes as origens dos caminhos da literatura – sem, claro, revelar seu nome real.